Se a China não agir, a União Europeia vai responder com tarifas — e não será um simples ajuste. Foi isso que Emmanuel Macron disse, com urgência, em entrevista ao Les Echos no domingo, 7 de dezembro de 2025. O presidente francês não escondeu a gravidade: "Hoje, estamos presos entre dois mundos, e é uma questão de vida ou morte para a indústria europeia." A ameaça não veio do vazio. Veio depois de uma visita de três dias à China, encerrada em 5 de dezembro, onde ele tentou, em vão, convencer líderes chineses a reduzirem o superávit comercial recorde de US$ 143 bilhões acumulado apenas nos primeiros seis meses de 2025. O déficit da União Europeia com a China já chegou a €300 bilhões em 2024. E agora, com os EUA redirecionando parte das exportações chinesas por causa das tarifas de Donald Trump, a Europa está sendo inundada — e não está preparada.
Um desequilíbrio que sufoca a indústria europeia
Os números não mentem. Enquanto a França importa carros elétricos, máquinas e componentes eletrônicos da China, suas exportações — de vinho, porcos, laticínios e ferramentas industriais — não conseguem acompanhar. Em 2024, o déficit comercial francês com a China bateu €47 bilhões. Isso não é só um problema de balança comercial. É um problema de empregos. Fábricas em Alsácia, Lorena e Normandia estão fechando ou reduzindo turnos. "Eles não estão competindo. Estão substituindo", disse um gerente de uma metalúrgica em Saint-Étienne, que pediu para não ser identificado. "Quando você vê um robô chinês custando metade do preço, com garantia de cinco anos, e entrega em 15 dias... o que você faz?"
Macron não está sozinho nisso. A Comissão Europeia, liderada por Ursula von der Leyen, já sinalizou que está disposta a agir. Mas o caminho é tortuoso. A Alemanha, maior economia da UE e maior parceira comercial da China na Europa, ainda resiste. Empresas como Volkswagen, BASF e Siemens dependem de cadeias de suprimentos chinesas. Cortar isso agora seria como amputar uma perna para salvar o corpo — e muitos acreditam que não vale o risco.
A estratégia de Macron: pressão pública e advertência diplomática
Segundo Sacha Courtial, pesquisador do Institut Jacques Delors em Paris, a fala de Macron foi calculada. "Ele já falou em privado. Agora, fala em público. É um sinal claro: não estamos mais negociando. Estamos nos preparando para agir." O presidente francês não pede guerra comercial. Pede equilíbrio. "Não podemos só importar. Empresas chinesas precisam vir para a Europa — investir, construir fábricas, contratar trabalhadores europeus", disse ele. Mas também alertou: "Não podemos permitir que empresas chinesas atuem como predadoras, com objetivos hegemônicos."
Essa é a linha tênue que Macron tenta manter: não quer se afastar da China — quer reequilibrar. Ele quer que a China invista em parques tecnológicos na França, em parcerias de inovação em energias limpas, em joint ventures de máquinas-ferramenta. Mas o que vê, em vez disso, são fábricas chinesas em Portugal, na Polônia e na Hungria, produzindo para o mercado europeu — e deslocando produtores locais.
As tarifas de Trump: uma arma que virou boomerang
É ironia da história: o que Macron critica como "inapropriado" na política de Donald Trump — tarifas de 57% em 2025, depois reduzidas para 47% — está ajudando a empurrar a China para a Europa. Com os EUA fechando a porta, os exportadores chineses estão redirecionando 30% de suas mercadorias para a UE. Resultado: em novembro de 2025, as exportações chinesas para os EUA caíram um terço em relação ao mesmo mês de 2024. Mas para a Alemanha, a França e a Itália, subiram 18%, 22% e 19%, respectivamente.
Isso criou um dilema. Os EUA dizem: "Veja? As tarifas funcionam!". A Europa responde: "Mas agora nós estamos pagando a conta."
Trump, em entrevista ao canal Mint YouTube em 10 de dezembro, não perdeu a chance: "Estamos recebendo centenas de bilhões de dólares. E agora a Europa está dizendo: ‘Temos que fazer o que Trump fez’". A declaração é um golpe psicológico. Macron não quer ser visto como seguidor. Mas a pressão está crescendo.
O que vem a seguir? O calendário da crise
Se nada mudar até março de 2026, a Comissão Europeia deverá apresentar um pacote de medidas. Fontes próximas ao processo dizem que o foco inicial será em veículos elétricos, baterias, painéis solares e equipamentos de telecomunicações — setores onde a China já domina 70% do mercado europeu. A ideia não é bloquear tudo. É impor tarifas progressivas: 10% em produtos de baixo valor agregado, até 25% em tecnologias estratégicas. Mas isso exige unanimidade. E a Alemanha ainda não assinou o acordo.
Macron já disse que prefere um "trégua" a uma ruptura. Mas a China não parece disposta a ceder. Em outubro, Pequim retaliou contra o vinho francês, impondo preços mínimos para a importação de cognac. Em novembro, ameaçou restringir exportações de laticínios e carne suína. O jogo de xadrez está em andamento — e cada movimento tem consequências nas prateleiras dos supermercados e nas fábricas da Europa.
Por que isso importa para você
Se as tarifas forem impostas, os preços dos carros elétricos, laptops e até brinquedos importados da China podem subir 15% a 20%. Mas o impacto mais profundo será no emprego. Milhares de postos de trabalho na indústria europeia estão em risco — e não apenas em setores tradicionais. Robótica, inteligência artificial, energia limpa: todos estão sendo reinventados pela China. Se a Europa não reagir com estratégia, não será só o déficit que cresce. Será a dependência.
Frequently Asked Questions
Por que a França está na frente dessa iniciativa e não a Alemanha?
A França tem um déficit comercial mais agudo com a China (€47 bilhões em 2024) e uma indústria mais vulnerável em setores como máquinas-ferramenta e automobilístico. Já a Alemanha depende fortemente da exportação de veículos e componentes para a China — cerca de 12% de suas vendas industriais vão para lá. Por isso, Berlim prefere negociação, enquanto Paris vê risco existencial.
O que aconteceu com as tarifas da UE sobre veículos elétricos chineses?
Em 2024, a UE impôs tarifas de até 38% sobre EVs chineses, como os da BYD e NIO, por suposto dumping. A China respondeu com restrições ao cognac francês e ameaças contra laticínios. As tarifas ainda estão em vigor, mas não foram suficientes. Em 2025, as importações de EVs chineses na UE cresceram 41%, enquanto as vendas de marcas europeias caíram 9%. Isso mostra que tarifas isoladas não resolvem o problema estrutural.
A Europa pode realmente impor tarifas sem acordo unânime?
Não. A UE exige unanimidade para tarifas comerciais. Mas há precedentes: em 2023, a Alemanha cedeu sob pressão para aprovar sanções à Rússia. Macron está tentando construir uma coalizão com Itália, Espanha e Países Baixos. Se conseguir 15 países (65% da população da UE), poderá pressionar Berlim a aderir — ou até usar o voto qualificado em certos casos, se a Comissão invocar a cláusula de segurança econômica.
Como a China está respondendo aos alertas de Macron?
Oficialmente, Pequim diz que respeita "a soberania comercial da UE". Mas em bastidores, autoridades chinesas estão acelerando investimentos em países do Leste Europeu — como a Hungria e a Sérvia — para criar rotas alternativas de exportação. Também estão pressionando empresas chinesas a aumentar o valor agregado em fábricas na UE, mas sem transferir tecnologia. A estratégia é: "Vamos montar aqui, mas vocês não vão controlar o que fazemos."
O que a Europa pode fazer além de tarifas?
Investir em inovação e subsídios à produção local. A UE já aprovou €80 bilhões para a indústria verde e digital até 2027. Mas a burocracia é lenta. A França quer criar um "fundo de soberania industrial" com capital público-privado. A Alemanha prefere incentivos fiscais. Sem uma resposta coordenada, as tarifas serão apenas um curativo — e a ferida continuará sangrando.
Macron está realmente querendo desacoplamento da China?
Não. Ele rejeita o termo "decoupling". O que quer é "rebalancing" — uma relação mais equilibrada. Ele ainda negocia acordos de cooperação em IA e energia nuclear com a China. Mas quer que isso venha com contrapartidas reais: mais investimentos chineses na Europa, menos dumping, e transparência em subsídios estatais. É uma visão realista, não ideológica.
João Pedro Ferreira
dezembro 15, 2025 AT 00:06A Europa está se comportando como um vizinho que só reclama quando o outro vira o jogo. A China não é inimiga, é parceira estratégica. Tarifas vão só piorar a situação. Precisamos de diálogo, não de muro.
Afonso Pereira
dezembro 16, 2025 AT 07:27Macron tá certo. É um jogo de poder geopolítico disfarçado de comércio. A China usa o déficit como arma de domínio industrial. O dumping estatal, subsídios obscuros, transferência forçada de tecnologia - tudo isso é neoimperialismo econômico. A UE tá dormindo enquanto o futuro é roubado em silêncio.
Caio Pierrot
dezembro 17, 2025 AT 18:56Se a Alemanha não se mover, a UE não avança. Mas também não adianta só apontar dedos. A solução tá no investimento conjunto: fundos de soberania, parcerias tecnológicas, formação de mão de obra europeia pra competir no mesmo nível. É isso que importa, não só tarifa no produto final.
Jailma Jácome
dezembro 19, 2025 AT 04:09Eu penso que a gente tá vivendo uma transição tão profunda que nem conseguimos nomear direito. Não é guerra comercial, não é protecionismo, é uma reconfiguração do mundo. A Europa tá tentando se lembrar de quem ela é antes de virar só um mercado consumidor. E isso dói. Mas talvez seja necessário. A indústria não é só emprego, é identidade. E identidade não se negocia com preço de fábrica.
Iara Almeida
dezembro 20, 2025 AT 02:23Isso aqui é mais que economia. É sobre futuro. A Europa tem que escolher: vai ser fabricante ou só comprador?
Flávia França
dezembro 20, 2025 AT 19:48É claro que a China tá roubando a Europa de jeito suave! Tudo isso é um plano de domínio global! E o Macron tá só no começo - eles já estão plantando fábricas em Portugal e Hungria pra esconder que são chinesas! E os carros elétricos? Tudo feito com trabalho escravo e poluição exportada! A UE tá sendo enganada por um império que não respeita direitos humanos nem meio ambiente!
Alexandre Santos Salvador/Ba
dezembro 21, 2025 AT 12:59Essa história toda é uma farsa. Os EUA criaram o problema com Trump, e agora a Europa tá pagando. Mas o pior é que a Alemanha tá com medo de perder suas vendas pra China. É traição disfarçada de pragmatismo. Eles preferem lucro a soberania. O povo europeu vai pagar com desemprego e perda de identidade.
Wanderson Henrique Gomes
dezembro 22, 2025 AT 21:43Se a UE quiser tarifas, tem que ser unânime. Mas a Alemanha tem razão: cortar cadeias de suprimento agora é suicídio. A solução é investir em inovação, não em retórica. E parar de fingir que a China é um inimigo. Ela é um parceiro complexo. Tratar como inimigo só piora tudo.
João Victor Viana Fernandes
dezembro 23, 2025 AT 08:20Quem define o que é justo no comércio? O mercado? O Estado? A ética? Acho que a Europa tá perdendo a capacidade de pensar além do balanço comercial. O que é valor? O que é soberania? Se a China constrói fábricas aqui e emprega europeus, é exploração ou cooperação? Talvez a pergunta certa seja: o que queremos ser quando crescermos?
Mariana Moreira
dezembro 23, 2025 AT 20:43Ohhh, então agora é só tarifa? Que criatividade! A Europa tá tentando resolver um problema de inovação com um problema de imposto? 😒 A China tá investindo em IA, energia limpa, robótica - e a gente tá pensando em taxar carros elétricos? Tá vendo o filme errado, galera. A guerra não é nas fronteiras, é nos laboratórios.
Mayri Dias
dezembro 25, 2025 AT 10:39Eu moro no Nordeste e vejo como os produtos chineses mudaram a vida da gente. Preços baixos, acesso a tecnologia, eletrônicos acessíveis. Mas também vejo a indústria local morrendo. Não é fácil. Não é só culpa de ninguém. É o mundo mudando. A Europa precisa de uma estratégia que não seja só defensiva. Precisa de visão, não só de tarifas.
Dayane Lima
dezembro 26, 2025 AT 23:41sera que a china ta mesmo invadindo ou a europa só nao consegue competir?
Bruno Rakotozafy
dezembro 27, 2025 AT 22:16se a alemanha nao aceitar, a europa nao faz nada. e se a china nao ceder, o que a europa faz? fica chorando? acho que o macron ta tentando forçar um consenso que nao existe. o mundo nao gira mais em volta da europa. a gente tem que aprender a conviver com isso, nao tentar voltar no tempo.